BRASIL, Sudeste, SAO JOSE DOS CAMPOS, Mulher, de 20 a 25 anos

 

   

    Klebao


 

 
 

   

   


 
 
CARA Q TERES?



A gente se acostuma a se acostumar

A gente se acostuma com a beleza, com o sorriso que no começo víamos como passaporte pra uma vida feliz, com a graça de um gesto carinhoso, com palavras escolhidas pra nos agradar, com a roupa colocada pra provocar. Então, deixamos de elogiar.

 

Em proporções iguais nos acostumamos com o que é feio, com a tristeza, com os egoístas, com a falta de gentileza, com atitudes rudes. Então, reclamamos veladamente, lamentamos covardemente.

 

Hoje em dia passamos incólumes pelo bom e pelo ruim. Por aquilo que deveria causar indignação e também por algo que mereceria comemoração. Congelamos o choro, adormecemos o júbilo, nos tornamos apáticos.

 

Então, passamos a viver como se muita coisa não fizesse diferença. Não é aceitável que o costume nos cegue, que a resignação nos ampute. Eu não posso concordar com a máxima dos acomodados, com a frase dos apáticos: “é assim mesmo, a gente acaba acostumando.”

 

Não quero me acostumar com a falta de beijos ardentes, conversas completas, planos fantasiosos, pensamentos esperançosos. Não vou me acostumar com a falta de carinho, altruísmo, simpatia, humor, surpresa e com a extinção dos abraços. Não devo e não posso me acostumar com a falta de coragem dos que não pretendem nem querem mudar.

 

Não quero me acostumar com o excesso de diálogos vazios, pessoas mal educadas, pessimistas de plantão. Não vou me acostumar com o excesso realidade, de desesperança, de crueldade. Não posso me acostumar com a abundância da desonestidade, das brigas, das palavras doloridas. Não devo e não posso me acostumar com o excesso de apatia que se abateu sobre as pessoas que eu amo.

 

Eu não quero e não vou me acostumar. Nem com o belo, nem com o feio. Nem com aquilo que me faria cair no choro e jamais com o que me faria gargalhar. É preciso resgatar aquela parte da gente que não se acostuma, que não se acomoda, que não aceita.

 

Quem sabe quando fizermos esse exercício do “desacostume”, passemos a enxergar virtudes, belezas, sorrisos, pedidos. Quem sabe a gente veja que muito do que está aí depende de nós, de um olhar mais atento, de um esforço, de uma percepção.

 

Vou resgatar a capacidade de me surpreender todo dia. Me surpreender com uma flor nascida fora de hora, com uma atitude gentil, com a beleza de um dia ensolarado, com um texto bem escrito, com um animal brincando, com o gesto de alguém que me fez sorrir num dia nublado.

 

Também quero devolver a capacidade de me surpreender com as crianças famintas no semáforo, com o caos generalizado, com atitudes ásperas, com a falta de sensibilidade, com a saudade de algo que já se foi, com o caráter dos desonestos, com o velho pedindo esmola, com o grito de um mal educado.

 

Quero voltar a enxergar, perceber e não me acostumar. Nem com o que me agrada e jamais com aquilo que me destrói.

 



Escrito por caraqteres às 15h30
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