BRASIL, Sudeste, SAO JOSE DOS CAMPOS, Mulher, de 20 a 25 anos

 

   

    Klebao


 

 
 

   

   


 
 
CARA Q TERES?



Seu nome é Albuquerque?

O caso do general Francisco Roberto de Albuquerque - aquele comandante do Exército que mandou parar um vôo comercial para que ele e sua mulher pudessem embarcar - pode mostrar o quanto todos nós podemos ser, em maior ou menor intensidade, oportunistas morais em benefício próprio.

 

O decoro íntimo e a auto-estima fazem com que não revelemos nem a nós mesmos o que pensamos e sentimos, mas basta fazer um exercício de reflexão para notar a espontânea e sincera preferência que temos por nós mesmos e pelas situações que nos cercam.

 

Vamos testar através de uma situação fantasiosa e exagerada, mas que ilustra muito bem o caso.

 

Você precisa decidir entre dois acidentes - um deles vai acontecer e o poder está nas suas mãos! Entre a queda de um avião na Índia que resultaria em 152 mortos (todos desconhecidos pra você) e um acidente de carro que mataria a sua família, qual você escolhe?

 

Fique tranqüilo, é normal - o peso da proximidade afetiva faz com que rapidamente escolhamos a situação a nosso favor - isso faz parte da natureza humana e é até questão de sobrevivência. Mas é preciso perguntar até que ponto pode chegar nossa preferência por aquilo que nos beneficia.

 

O excesso de parcialidade por nós mesmos, quando se torna explícito e abertamente reconhecido, ofende, agride e envergonha a humanidade - como foi o caso do general citado lá no primeiro parágrafo.

 

Ta certo que ele usou o (abuso do) poder para mandar o avião voltar (nós não conseguiríamos), por outro lado não matou 152 pessoas na Índia para embarcar. Esqueçamos que houve prevaricação e vamos nos limitar ao fato da preferência por si mesmo, prejudicando outras tantas pessoas que estavam já no avião em processo de decolagem. Resumindo: ele não usou o discernimento entre o certo e o errado (e alguém duvida que ele não saiba o que é certo e o que é errado?) numa situação que envolvia escolha moral.

 

E aí nós bradamos sobre o absurdo da sua atitude porque o que está em jogo são ações e interesses distantes da nossa rede de relacionamentos e preocupações. Somos todos juizes muito competentes quando nossa tarefa é aprovar ou condenar determinadas condutas, que não as nossas.

 

Aristóteles já dizia que “ninguém é bom juiz em causa própria” justamente porque quando precisamos atribuir a devida dimensão ao que se refere a nós mesmos; quando é necessário decidir entre nossos interesses e os interesses de outros, nossa capacidade de discernimento e juízo moral tende a ficar seriamente enfraquecida.

 

Mas dá pra perceber que essa parcialidade por nós mesmos ganhou dimensões exageradas, se transformando num vício coletivo. E são esses vícios coletivos que vão tornando o Brasil um país cada vez mais difícil; é essa propensão ao auto-engano - “ah, mas eu preciso embarcar porque tenho um compromisso importantíssimo” ou “tenho furar fila porque estou atrasado”, ou ainda “vou votar no Aroldo porque ele deu as camisas pro meu time de várzea” - que vai diminuindo, cada vez mais, o espírito republicano, a prática da cidadania.

 

Usemos então para pesar o erro do general - guardadas as devidas proporções como o abuso de poder - a mesma balança que utilizamos para aferir nossas atitudes. Jamais deixaremos a parcialidade espontânea de lado, ainda bem (senão também haveria caos, pois a dor dos outros doeria também na gente, nossa auto-estima ficaria demasiadamente abalada, etc) mas é preciso notar, urgentemente, se cada um de nós não é, cotidianamente, uma espécie de general Albuquerque.

 



Escrito por caraqteres às 10h14
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