BRASIL, Sudeste, SAO JOSE DOS CAMPOS, Mulher, de 20 a 25 anos

 

   

    Klebao


 

 
 

   

   


 
 
CARA Q TERES?



Cansaço

Não é raiva, não é rebeldia. É apenas uma certa preguiça do mundo e seus derivados. Essa noite eu ouvi o barulho da caixa d’água se enchendo e chorei. Chorei porque percebi que estou cheia de tantos vazios que se acumularam aqui dentro e, de repente, não sei como me salvar.

 

Tentei as lágrimas pra fazer escorrer toda essa sensação aguda de saciedade daquilo que não gosto. Como quem come muito e depois lamenta por não conseguir andar, eu absorvi o mundo e, agora, não consigo viver.  

 

Eu preciso esvaziar partes pra abrigar outras mais belas, ainda que metades. Mas o mundo me encheu de coisas sujas e feias. O mundo me encheu de guerra, injustiça social, medos e traumas. E eu deixei.

 

Eu estou cheia de pessoas que nada têm além de ecos podres. Elas falam sobre problemas, pedem ajuda, vomitam lamentos e eu saio cansada.

 

Quero apenas um lugar vazio pra guardar o que me interessa. Mas todas as frases inúteis estão aqui. Diálogos mesquinhos, momentos banais, conversas de danceterias, mentiras ditas com cinismo característico, tempo perdido.

 

Vejo tanta coisa bela aqui fora e me falta sorver. Me falta a leveza para enxergar aquilo que o mundo me mostra, com urgência, e eu cega de cansaço, fecho os olhos. Cerro as pálpebras porque me roubaram a vitalidade, levaram minha disposição para suportar o que não me agrada.

 

Eu guardei tudo o que vi até hoje. E estou tão pesada que olho pra algumas pessoas e lembro de todos os seus problemas que nem elas recordam mais. Elas mostraram um dia e eu guardei, elas esqueceram.

 

Guardo o pedido de ajuda, reclamações, amores perdidos, saudade. Guardo sofrimentos, traições e desejos mortos. Guardo, acima de tudo, cansaço.

 

Cansaço de um mundo que não dediquei a mim. De um mundo repleto de filmes que não me agradam, palavras que não gosto, livros que jamais leria. Eu guardo músicas pobres, diálogos idiotas, vontades que nada têm a ver com os meus desejos.

 

Eu guardo um mundo que não me pertence. Um mundo cheio de bêbados que se abraçam comemorando a balada mais cheia dos últimos tempos. Guardo culto exagerado ao corpo, insegurança, dor da traição, nostalgia, depressão. Guardo traumas de infância, excesso de racionalidade, medo do futuro, culpa pelo fracasso.

 

Mas nada disso é o meu mundo. Nada disso sou eu.

Então o que está fazendo aqui dentro?

 

O meu mundo se perdeu dentro do que eu criei com o mundo de todo mundo. E agora preciso encontrar espaço porque me sinto vazia de mim e todo o resto mora aqui me dando tanto cansaço...

 

 



Escrito por caraqteres às 15h47
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