BRASIL, Sudeste, SAO JOSE DOS CAMPOS, Mulher, de 20 a 25 anos

 

   

    Klebao


 

 
 

   

   


 
 
CARA Q TERES?



Homenagem a ela, que não conheci

De acordo com exame do Instituto Médico Legal, quatro dos cinco jovens que morreram em acidente de carro na Lagoa Rodrigo de Freitas (RJ) no último dia 3 estavam alcoolizados. Apenas no sangue de Ana Clara Padilla não foram encontrados vestígios de álcool.

 

Não pretendo aqui levantar discussões a favor ou contra o álcool, criticar pais e mães, maldizer jovens que bebem, nem nada disso. Existe gente gabaritada pra fazer tudo isso. Mas, o fato de apenas uma menina não ter bebido durante a noite me leva a uma rápida identificação, a uma tristeza de quem logo pensa “podia ter sido eu”.

 

Ana Clara era namorada do motorista e pelas entrevistas que eu vi com as suas amigas, tinha brigado recentemente com ele justamente por discordar da quantidade de bebida que costumava ingerir. Se não me engano, já tinha chegado sozinha em casa, tempos antes, dizendo à mãe que preferiu pegar um táxi a voltar pra casa com Ivan Guida.

 

Podia ter sido eu. Podia ter sido eu. Podia ter sido eu.

 

O fato de Ana Clara não ter bebido nesse dia, não significa que não fazia isso nunca. Mas, tenho a impressão de que a garota era avessa à apologia ao álcool. E se eu tiver certa quanto à dedução, a história fica ainda mais triste pra mim. Não, os outros jovens não mereciam morrer, mas – mesmo correndo o risco de ser apedrejada – penso que principalmente Ana não merecia. Ela não.

 

Arrisco dizer que desde que começou essa obrigação de “viver intensamente” - e eu não sei quando começou ou se sempre foi assim – as pessoas se confundiram um pouco com a essência da coisa. Parece fazer parte de um certo senso comum a idéia de que para aproveitar a vida, segundo a segundo, é preciso experimentar tudo freneticamente, fugir da rotina, sair do ar, exagerar.

 

O tal do prazer a qualquer custo é levado a sério por muitos jovens que, para se divertir, dependem do álcool, das drogas, da velocidade, da inconseqüência. Separo assim apesar de não enxergar distinção entre uma coisa e outra.

 

(continuação no próximo post)

 



Escrito por caraqteres às 16h11
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continuação...

Acho que a Ana Clara pensava como eu.

 

Pra me divertir, preciso apenas da minha sanidade, que me permite aproveitar sim, cada segundo, mas aproveitar integralmente, sem me abstrair de mim mesma, sem fazer uso de estimulantes químicos pra sorrir.

 

Pra viver intensamente, preciso me embriagar apenas daquilo em que acredito, do que me acrescenta, jamais do que me reduz à dependência. Pra curtir o mundo eu não preciso tentar ser uma outra pessoa – mais solta, mais ousada, mais alcoolizada.

 

Eu não quero ser sugada por uma substância que me impede de ser tantas dentro de mim mesma. A vida já esfrega sensações malucas 24 horas por dia na minha cara. Eu já experimento o êxtase o tempo todo. E, no entanto, eu não preciso beber pra ser feliz.

 

Pra fugir da realidade eu choro, eu falo, eu ouço música, eu vejo filmes, eu leio, eu escrevo. E tudo isso me permite – felizmente – ser eu mesma o tempo todo. Eu mesma, mesmo tendo outras tantas dentro de mim. Ana Clara devia ser assim.

 

Ana Clara também não precisava. Ana Clara não aprovava. Ana Clara foi injustiçada.

 

Afinal, será isso tudo o reflexo de muitos serem prisioneiros da ilusão da felicidade fácil e sem fim? Felicidade que para ser conquistada precisa da ajuda do exagero, do modismo desenfreado.

 

Saber que Ana Clara não tomou nada alcoólico me fez pensar no quanto ela já deve ter sido motivo de chacota por parte de pessoas que a rotulavam careta e chata só porque se recusava a entrar pras estatísticas dos jovens que ficam bêbados.

 

Digo isso porque com 23 anos eu nunca tomei um porre, nunca usei drogas, nunca dependi de nada pra dançar uma noite inteira, pra rir, pra ousar, pra viver. Mas, ao contrário do que deveria, sou exceção, sou vista com preconceito. Se eu me importo? Não perco tempo, sei que não vou ceder. Acredito nessa loucura que é viver na contramão.

 

Se tantos, no dia a dia, são ativistas praticantes a favor do uso de estimulantes, me reservo o direito de dizer que aproveito a vida intensamente sem, no entanto, arriscá-la irresponsavelmente.

 

Ana Clara, apesar de não tê-la conhecido, essa é uma homenagem a você.



Escrito por caraqteres às 16h10
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