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CARA Q TERES? Faz-de-conta E aí você percebe que já não consegue mais fazer cara de legal quando julga as tais pessoas em volta dispensáveis demais. Aquele artifício que sua mãe ensinou um dia – não faça essa cara de quem não gostou, disfarça! – foi deixado de lado sabe-se lá quando e porquê. O que você sabe, agora, é que talvez seja impossível bancar a simpática quando, na verdade, sua vontade é sair correndo do lugar. Ou, no mínimo, sacar o livro de dentro da bolsa e voltar pro seu mundo: bem menos engraçado, mas real. Não dá pra conviver só com quem a gente tem admiração, eu sei. Que mal há em sentar à uma mesa onde ninguém fala nada que te interessa e, mesmo assim, dar risada, fazer um ou outro comentário só pra parecer legal, não é mesmo? Mal nenhum, mas como é difícil isso, minha gente. O problema, pra mim, não é conviver pacificamente – eu sei fazer isso. O grande lance é fingir que eu estou gostando. Fingir, fingir, fingir. A tal politicagem, de se fazer interessada por coisas que não te acrescentam, de emplacar um sorriso-padrão-para-assuntos-nada-a-ver-comigo, enquanto penso “não me interesso pelo seu carnaval de 1992, quando você vomitou na sua namorada, mas minha cara consegue te enganar enquanto eu fico aliviada por ter que ficar aqui nessa festa só mais duas horinhas”. Na vida profissional, tudo bem, existem interesses e, às vezes, motivos pra gente se esforçar um pouco. Mas e nas relações pessoais? Por que sair com aquela amiga da época do colégio que hoje em dia usa roupas de pele, só pensa em balada, briga na rua e tem zero afinidade comigo? Eu não! Prefiro lembrar de quando ela salvava as formigas pra não morrerem afogadas e gostava de dividir um prato de brigadeiro, enquanto conversávamos na calçada da nossa rua, em pleno sábado à noite, sem neurose e desespero pra ir numa balada. A gente já passa pouco tempo com quem escolhe e ainda tem que dividir com aqueles que não tá a fim? Tem. A gente tem, sim, que ir numa festa sem ter vontade, tem que dar um sorriso amarelo pra comentário idiota, tem que rir de piadas sem graça, tem que fazer cara de simpática quando a vontade é enfiar a cara na churrasqueira pra não ter que fingir interesse por aquelas pessoas. Não, não são pessoas más. São apenas pessoas tão significativas pra mim quanto a contusão do zagueiro do XV de Caraguá. Mas o mundo um dia inventou e a gente aceitou: é preciso fingir ou, ao menos, omitir. É necessário ter uns modelos diferentes de máscaras pra usar de acordo com o público-alvo. É antipático não rir de tudo, o tempo todo. É um absurdo não ter nada pra comentar quando o assunto é a balada de ontem, que eu nem fui. Então, lá vamos nós. Se eu ainda sei fingir que as piadas machistas do meu chefe são super engraçadas, também posso reaprender a dar um sorriso e fazer alguns comentários-chave, do tipo: que legal; eu também; é mesmo; eu gosto (sorriso-padrão); queria muito ir à sua festa rave (cara convincente), o dia tá mesmo ótimo praquela balada cheia gente que só fala no diminutivo mas pena que eu não vou (cara convincente); também me divirto com quem enche a cara e dá vexame (sorriso-padrão) ... Não custa, Caroline! É só de vez em quando mesmo! E a gente sempre aprende alguma coisa – no mínimo é treino pra um dia me candidatar a algum cargo político. Quem sabe? Escrito por caraqteres às 15h21 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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